Posts arquivados em Tag: textosdeamor

18 fev, 2019

CRÔNICA: PLANETÁRIO

Estamos nos alinhando. Como dois planetas à beira da colisão. Devagarinho, como o céu estrelado que se mexe com movimentos invisíveis, diariamente eu me vejo mais perto de você. Dois mundos inteiros prestes a se misturar. E um dia o que brilha em mim será estrela em você. E o que ilumina em você será estrela em mim. É mesmo uma intimidade graciosa oferecer o que existe de melhor em mim a você e receber o mais precioso de você. Você mesmo.

Como uma galáxia iluminada, eu sinto explosões solares todas as vezes que sua mão toca meu rosto enquanto meu coração atinge um milhão de graus quando uma mecha teimosa de cabelo vai para trás da orelha. Somos essa nebulosa colorida, roxa, azulada, rosa e âmbar. E só estamos lá, nos sendo. Já parou para pensar que calmaria é o céu? Não existe barulho, senão cometas zunindo e meteoros passeando pelo mar de escuridão. Tudo reluz enquanto buracos negros silenciosos engolem universos inteiros para Deus sabe lá onde.

Assim, é aqui: paz. Somos nós. Na cadência das nossas estrelas, rumo ao futuro, que como o avesso dos buracos negros: desconhecemos. Mesmo assim, mergulhamos nele como os sistemas solares atravessam o vazio, no caminho à maior descoberta de cada uma de nossas vidas: o amanhã. O amanhã é uma expectativa feita de pó de sonho. Desconhecida. Não está do outro lado do telescópio, o amanhã… O amanhã não é pra saber. Por isso, na nossa própria via Láctea, o tempo passa tão rápido que a única pressa é o dia seguinte, o encontro seguinte.

Aqui, o amanhã é pressa de companhia também. É rasgar o céu pra entrar no seu mundo, pra ser o seu mundo. Um segredo? Astronave nenhuma saberia estudar a constelação que rebrilha nos seus olhos e espelha nos meus. Mistério daqueles dos lugares que o Hubble ainda não descobriu. Eu tenho certeza que seus olhos são de lá. Desse lugar desconhecido, distante e inalcançável. Dia após dia, estamos nos alinhando. Dia após dia, tudo faz sentido, teu encaixe comigo é quase matemático. É como se, como resto do cosmo, você tivesse sido calculado sob medida para me saber. Para me desbravar, de corpo livre no infinito. É como se feito o firmamento pra Terra, você já estivesse aqui pra mim há tanto tempo.

11 fev, 2019

CRÔNICA: EU ESQUECI

Eu esqueci de mim. Não sei como. Nem teve porque. Não foi algo. Não foi alguém. Não foi um lugar. Sem dolo, sem culpa. Esqueci. Esqueci que queria as coisas que queria. Esqueci que gosto de noites tranquilas com comida e violão. Esqueci que gosto de ouvir as risadas dos amigos em dia de filme. Esqueci que gosto de rodar o shopping ainda vazio de braços dados com minha. Esqueci que eu queria morar um tempo fora, mas que nunca mudaria pra sempre da capital porque isso aqui é casa. Eu gosto do cheiro de casa. Outra coisa que eu também já tinha esquecido. Esqueci que gosto de ler na janela. Que não gosto de pegar metrô à noite nem de brigar com as pessoas. Esqueci como é não estar cansada. Esqueci como é suspirar em paz no fim de um dia em que eu trabalhei trabalhei trabalhei: fiz tudo que quis.

Fui eu. Esqueci de caminhar comigo, esqueci do raio da fidelidade à mim. Abri mão, abri as mãos, abri as portas. Saí. Fui ver o mundo. Mundo grande. Perna pequena. Andar sempre sempre e sempre, olhando os cantos, as cores e as expressões. Esqueci que eu não curto bar alternas, que eu não curto o alternas e que eu queria mesmo era o melhor do melhor, como eu sempre quis antes.

Esqueci de não precisar tentar, esqueci de deitar no chão frio com as pernas na parede. Esqueci de amar as manhãs frias, esqueci as memórias da menina que eu era antes do tempo virar. Esqueci de balançar na rede, testar maquiagem e dar errado. Esqueci das minhas exigências, das minhas querências, do meu jeito de querer tudo sempre a meu modo, mas ceder vez em quando com charme que é pra dar gosto. Esqueci de querer, de decidir, de lembrar que eu sempre posso escolher. O tempo virou. A vida virou. O mundo ficou. Eu fiquei também.

Uma memória. Eu. Me lembrei de mim. Lembrei das querências, das exigências, voltei pior. Querendo mais, exigindo mais. De mim. Dos outros. Do mundo. O melhor, o melhor e o melhor. Lembrei de amar ler na janela, lembrei de amar shopping vazio em plena manhã de sexta-feira, lembrei de ouvir as músicas que só eu gosto. Pego metrô a hora que eu quiser, trabalhar e trabalhar até que eu seja o que eu sempre quis de tudo: O melhor. Liguei pros amigos, lembrei das risadas, dos abraços, das noites de violão e o calor do fogão. Comunhão. Lembrei de criar o mundo que eu gosto, me cercar do que parece comigo e a explorar aquilo que desconheço. Lembrei de mim. Lembrei da paz da casa cheia, do som do piano e da luz na varanda. Fidelidade de mim. Memória. Mulher. A vida virou. Eu virei eu outra vez. Mais eu mesma do que nunca.