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15 abr, 2019

CRÔNICA: AMOR

Depois de tantos anos o nosso sonho finalmente se realizou. Surgiu pequeno, como um broto de feijão que unia os nossos dois corações e foi crescendo ao passo que era alimentado todos os dias. Você entrou na minha vida sem aviso e ao passo que as horas corriam, eu me sentia sempre mais próxima de ti, sem ao menos saber do que se tratava, fui deixando essa distância entre nós dois diminuir e o broto de feijão se tornar maior.
Com tantas batidas do meu coração era difícil escutar algo de fora, mas para ser bem sincera eu nem me importava de não entender contando que estivesse com você. Eu balançaria a cabeça para qualquer coisa que você me perguntasse na tentativa de arrancar um sorriso seu, aquele que me acompanhou até aqui e que me livra até do maior dos males.
Quando eu sonhava em te encontrar, não sabia que seria assim e nem até onde chegaria. Me surpreendi todas as vezes com o que destino me apresentou e dentro de mim uma enorme gratidão cresceu, era tudo além do que eu poderia desejar e muito mais do que eu deveria merecer.
De fato era um confidente, companheiro, melhor amigo e comediante que estava do meu lado e que ainda continua no mesmo lugar. De todos os lugares possíveis para ficar, ele escolheu esse e eu escolhi ele.
Até hoje pergunto aos céus, o que fiz para ganhar alguém assim? O que quer que tenha sido, por favor me avise. Farei dez vezes mais.

08 abr, 2019

CRÔNICA: VERBO

Inevitavelmente, você está em todas as páginas, todos os livros, todos os filmes. Inegavelmente, teus defeitos fazem falta nos meus fins de tarde, tua voz cantando baixinho no carro não me abandona enquanto eu dirijo pro canto oposto da cidade e som da tua risada, aquela primeira da manhã, ecoa no sol cedo do sábado.

Coleias páginas desse livro velho que é a gente, que é insistir nos mesmos erros.Erro em ir de novo ou erro em ficar de novo? Eu não sei. Só lutei contra o ímpeto que te fazpermanecer, queimei todas as cenas do passado, só pra depois ter certeza de quenão dava para incinerar aquilo que por si só já era incêndio. Eu discutocomigo e peço pra não me angustiar, me convenço que preciso de um sinal teu, deum avanço que me fala não ter vontade de ir embora. Naquela minha autossuficiência, eu sempre soube nãoprecisar de você. E que engraçado é não precisar e querer tanto. É queeu sou assim, sabe?

Eusei que você quer, por te conhecer como a palma da mão, por decorar a cadênciadas tuas palavras, por ter teu olhar gravado no meu. Mas, eu preciso saber que você mequer, com segredo contado de madrugada, como confissão adolescente feita em umestacionamento qualquer. Eu preciso saber que nosso querer-não-quereruma hora se desfaz no colo do outro. Eu preciso saber de simplicidaderotineira, antes tão incômoda, agora tão singela e cheia de sensibilidade.

Enquanto isso, corremos. Corremos pra nãoabrir o peito, pra não abrir a caixa de pandora que os dois carregamos nocorpo. O outro. Eu moro aí e você mora aqui. Te levo pra ver o mundo enquantovocê escuta música no quarto, você me leva pro trabalho enquanto eu assistotelevisão. Fugimos. Porque o encontro é sempre igual. Uma palavra puxa a outracomo irmã e, nesse magnetismo, o separar deixa de fazer sentido. Como a mágicaem que um lenço é puxado da cartola, cada frase chama a próxima e a conversanunca acaba. Porque a gente nunca acaba e é saber disso que faz a ausênciaamarga e nos obriga a aumentar os espaços. Basta uma vez, basta chegar um poucomais perto. Pra que, de novo, tudo seja fogo.

01 abr, 2019

CRÔNICA: HISTÓRIA PRO NÓS DORMIR

Parei de tentar me enganar e dizer que a gente combina. De tentar provar pra mim que você era a ideia perfeita, o futuro desejado e o tempo que eu não perdi, ganhei.

Parei de me lembrar de te amar em todas as manhãs e em me falar que distância e tempo é o mesmo que nada pra um amor forte e findo no mundo, mas eterno no peito. Eterno, de fato. Eterno por alguém que não existe mais.

Eu amei quem você era, em todas as cores e intensidades possíveis. Amei, amei e amei até depois do fim. Amei até que não sobrasse nada, como quem torce o cabelo molhado depois do banho. Até a última gota, com a delicadeza necessária pro cuidado não machucar.

Não é você, sou eu. Um clássico. História pra boi dormir. Coração pra gente partir.

Quem tenta muito sempre acostuma a permanecer tentando mesmo quando não há nada pra ser objeto de tentativa. Você não existe mais. Carinho pra sempre, memória que alegra o peito e todas as coisas bonitas que a gente odeia pensar sobre quando tá junto, mas que é o que fica depois que tudo acaba. Histórias de nós. Histórias pro nós dormir.

25 mar, 2019

CRÔNICA: CURTO-CIRCUITO

Você me reapareceu assim: Susto,soluço, choque, arrepio. Corrente elétrica que atravessa o copo num caminhoconhecido, canto cativo, e sabe exatamente que provocar. É como enfiar o dedona tomada: Perigo, de novo. E, outra vez, eu não ligo. A gente sempre riu nacara do perigo e sempre chorou quando o choque do beijo virou curto circuito. Mas, é sempreassim: um susto. Euforia que me levanta pelas pernas e se debruça em todas asminhas dúvidas com uma cara de quem me pergunta “por que não?”. A minha cabeçagira entre um eterno “eu sempre soube que seria você” e uma desconfiança de“será que é mesmo?”. Eu nunca sei responder.

Quandovocê gritou meu nome na multidão daquela noite, eu tive certeza: Você tinhavarrido minha sanidade. O que eu estava fazendo ali? E o corpo respondeu namesma hora, uma daquelas sensações sem nome. A voz por trás do grito tinha omesmo nome do meu arrepio. Corrente de adrenalina, voz entalada na garganta,pés presos no chão.

Pordentro, eu já tinha virado geleia. Mas, do lado de fora, eu sabia que você meenxergava sólida, cheia de certezas, todas elas vindas de uma vida da qual vocênão era mais parte. Tranquilidade na respiração e risada leve, que surgiram desó Deus sabe onde. Você me estranhou, certamente procurando algum vestígio seuem mim. Desculpa. Nenhum de nós sabia, mas quando você atravessou a porta,começou a me ensinar a lembrar de mim, e só de mim. Viver sem você no fim dascontas não era tão difícil.

Agente é uma daquelas coisas que eu não saberia por onde começar. Mas, já seique se começasse, não saberia como parar. Já sei também que ia ficar sem jeito,totalmente perdida entre observar teu sorriso e encarar o olhar que me seguiu acada instante depois que a nossa conversa acabou. E o nosso jeito? Será que agente já desaprendeu as coisas que sabíamos de cor? Será que eu saberia teencaixar no meu hoje e teria lugar pra mim do lado daí?

Lembrocomo se fosse hoje, o último sorriso que você me deu antes de partir, e comoparecia que nele cabiam todos os significados do que era ser a gente. E aindaassim, eu não sei dizer se as coisas fazem sentido. Eu sempre sei. Dessa veznão. Dessa vez, só tem a gente se encontrando, um tão perdido quanto o outro.Dupla pra vida, não era? Não encontrei esse sorriso da última vez que nosvimos, mas era como se a gente procurasse aquelas coisas conhecidas no outro.

Mas,alguém havia mudado os móveis da casa do lugar. Quase tudo mudou. E o “Nós”?Foi nas caixas da mudança ou ficou bem guardado naquele baú decorado no fundodo armário do escritório? Outro dia chegou aqui em casa uma foto sua, sabia? Demuitos anos, quando não tinha barba e nem estatura. E também teve outra: Euachei ter jogado tudo que era seu fora, mas abri o porta joias e encontreiaqueles anéis que te custaram alguns meses de mesada e muita coragem pra medar.

Tever engatilhou em mim um caos que já havia se instalado aqui inúmeras outras vezes,só que dessa vez se espalhou num lugar bem menos ingênuo. Eu não sei se vocêseria capaz de me amar tanto assim. Não tanto quanto eu vou querer. O tempo mefracionou e metade de mim morre de medo de retroceder, enquanto a outra metadesabe que a isto eu sei de chamar de lar. Tanto mudou e tanto permanece igual, écomo se a pinta no canto da tua boca sentisse falta dos beijos roubados.Preciso confessar: vez em quando eu te visito pra viver um pouco das memórias,porque de saudade eu já morri faz tempo.

Queriate redescobrir do zero, daquelas coisas que não existem, né? Eu sei que não.Mas queria te redescobrir de novo, como promessa adolescente, adrenalina do quenão foi vivido. Sussurar no seu ouvido tudo o que não somos ainda. Eu nem seise a gente ainda se encaixa. Retrocedemos quilômetros e perdemos tanto tempo,ou será que foi perder pra ganhar? Se pá. Eu só sei que, se for você, a vidavai dar um jeito de me fazer te encontrar e que, se não for, eu é que sereiencontrada.

18 mar, 2019

CRÔNICA: TODA DOR É POR ENQUANTO

Por enquantoainda te amo, por enquanto ainda sigo seus passos na sala, ainda procuro teusrastros na minha pele, ainda olho no fundo do armário em busca daquela camisajeans velha que eu queria pra mim. Ela não está aqui. E você também não.

Por enquanto,ainda sorrio lendo cartas, ainda choro olhando fotos e ainda evito passar pelosteus lugares, ainda postergo os planos de adotar um cachorro pra ver se asolidão passa.

Por enquanto,ainda perco ar se o telefone toca, ainda é taquicardia se vejo sua foto na telado celular, ainda é meu corpo escorregando pela porta num choro compulsivo.

Por enquanto,saudade. Por enquanto, ainda é você.

Toda dor é porenquanto. Toda dor é feito viagem no verão: data que começa e dia em quetermina. Essa não foi planejada, não marquei data pra te perder nem marqueidata pra retornar pra casa sem pensar em você. Mas, eu pretendo voltar pra mimo quanto antes. Por enquanto, choro, por enquanto adentro o buraco que vocêdeixou em mim. Você, meu querido, é só o meu por enquanto.

04 mar, 2019

CRÔNICA: PERDÃO

Depois de todo esse tempo estou aqui, na sua frente, com o poder de apontar dedos como durante todos esses anos fez comigo, com o direito de criticar e te insultar sem mesmo me preocupar em lembrar seu nome ou o que fez de tão significante, com a razão de dizer grandes coisas sem ligar para as consequências.

Depois de todo esse tempo, cá estou eu, reconstruída. Uma união de cacos quebrados colados. Fragmentada. Armada.

Depois de todo esse tempo eu voltei, não como a vítima, não mais e, sim, como a que bate o martelo. Em vez disso, eu me aproximo e te toco. Te perdoo. Nunca pediu, mas vai desejar isso pelo resto dos dias. Eu te perdoo. Perdoo quando colocou o pé no caminho e me fez espatifar no chão porque seus amigos acharam que ia ser engraçado. Perdoo quando escreveu aquelas frases na parede do banheiro me esperando chegar pra tornar o que estava ruim bem pior. Perdoo quando espalhou histórias pelo colégio inteiro e me fez passar dias sem ir na cantina porque temia que alguém me encontrasse no caminho.

Perdoo porque o seu pior castigo é passar os dias desejando ter crescido antes. Agora já é tarde e o sol já se põe, todos vão para as suas casas se proteger da escuridão enquanto você espera por ela.

25 fev, 2019

CRÔNICA: NADA MAIS AQUI É SEU

Um dia euacordei e decidi que as coisas que eram nossas não eram mais nossas. Aliás, nãoeram mais suas. Porque eu iria tomar de você. É, eu iria parar de não usar certaspalavras porque elas nos pertenciam. Iria parar de evitar a estação x do metrôporque ela era sua. Iria tirar de você os direitos autorais da mordida nabochecha e a patente sobre o brigadeiro de paçoca. A verdade é que eu queriatirar ‘aquilo que tinha de mais naquelas coisas’. Queria apagar sua assinaturados lugares, ver seu cheiro sumir dos cômodos, parar de identificar as coisascomo suas, nossas, daquele tempo. Saudosista feito uma velha, ai meu Deus.Aonde é que eu vou parar?

Resolvi passear no seu bairro, melhor ainda, na sua rua. De sua não teria mais nada. A rua era apenas a rua com a minha loja de bolos favorita. Levei outra companhia. Marcar aquele lugar com outra presença. De outro, você deve estar pensando. Não, de mim. Ouvir suas músicas em outros quartos, não eram mais suas. Usar nossos códigos com outras pessoas, tomá-los do velho nós, patenteá-los pra mim, compartilhar com as amigas. Dessantificar o que era a gente. Profanar tudo que um dia também foi seu. Virar coisa besta corriqueira que passa despercebida no dia a dia. Quem sabe você não estar aqui passa despercebido também.

18 fev, 2019

CRÔNICA: PLANETÁRIO

Estamos nos alinhando. Como dois planetas à beira da colisão. Devagarinho, como o céu estrelado que se mexe com movimentos invisíveis, diariamente eu me vejo mais perto de você. Dois mundos inteiros prestes a se misturar. E um dia o que brilha em mim será estrela em você. E o que ilumina em você será estrela em mim. É mesmo uma intimidade graciosa oferecer o que existe de melhor em mim a você e receber o mais precioso de você. Você mesmo.

Como uma galáxia iluminada, eu sinto explosões solares todas as vezes que sua mão toca meu rosto enquanto meu coração atinge um milhão de graus quando uma mecha teimosa de cabelo vai para trás da orelha. Somos essa nebulosa colorida, roxa, azulada, rosa e âmbar. E só estamos lá, nos sendo. Já parou para pensar que calmaria é o céu? Não existe barulho, senão cometas zunindo e meteoros passeando pelo mar de escuridão. Tudo reluz enquanto buracos negros silenciosos engolem universos inteiros para Deus sabe lá onde.

Assim, é aqui: paz. Somos nós. Na cadência das nossas estrelas, rumo ao futuro, que como o avesso dos buracos negros: desconhecemos. Mesmo assim, mergulhamos nele como os sistemas solares atravessam o vazio, no caminho à maior descoberta de cada uma de nossas vidas: o amanhã. O amanhã é uma expectativa feita de pó de sonho. Desconhecida. Não está do outro lado do telescópio, o amanhã… O amanhã não é pra saber. Por isso, na nossa própria via Láctea, o tempo passa tão rápido que a única pressa é o dia seguinte, o encontro seguinte.

Aqui, o amanhã é pressa de companhia também. É rasgar o céu pra entrar no seu mundo, pra ser o seu mundo. Um segredo? Astronave nenhuma saberia estudar a constelação que rebrilha nos seus olhos e espelha nos meus. Mistério daqueles dos lugares que o Hubble ainda não descobriu. Eu tenho certeza que seus olhos são de lá. Desse lugar desconhecido, distante e inalcançável. Dia após dia, estamos nos alinhando. Dia após dia, tudo faz sentido, teu encaixe comigo é quase matemático. É como se, como resto do cosmo, você tivesse sido calculado sob medida para me saber. Para me desbravar, de corpo livre no infinito. É como se feito o firmamento pra Terra, você já estivesse aqui pra mim há tanto tempo.

11 fev, 2019

CRÔNICA: EU ESQUECI

Eu esqueci de mim. Não sei como. Nem teve porque. Não foi algo. Não foi alguém. Não foi um lugar. Sem dolo, sem culpa. Esqueci. Esqueci que queria as coisas que queria. Esqueci que gosto de noites tranquilas com comida e violão. Esqueci que gosto de ouvir as risadas dos amigos em dia de filme. Esqueci que gosto de rodar o shopping ainda vazio de braços dados com minha. Esqueci que eu queria morar um tempo fora, mas que nunca mudaria pra sempre da capital porque isso aqui é casa. Eu gosto do cheiro de casa. Outra coisa que eu também já tinha esquecido. Esqueci que gosto de ler na janela. Que não gosto de pegar metrô à noite nem de brigar com as pessoas. Esqueci como é não estar cansada. Esqueci como é suspirar em paz no fim de um dia em que eu trabalhei trabalhei trabalhei: fiz tudo que quis.

Fui eu. Esqueci de caminhar comigo, esqueci do raio da fidelidade à mim. Abri mão, abri as mãos, abri as portas. Saí. Fui ver o mundo. Mundo grande. Perna pequena. Andar sempre sempre e sempre, olhando os cantos, as cores e as expressões. Esqueci que eu não curto bar alternas, que eu não curto o alternas e que eu queria mesmo era o melhor do melhor, como eu sempre quis antes.

Esqueci de não precisar tentar, esqueci de deitar no chão frio com as pernas na parede. Esqueci de amar as manhãs frias, esqueci as memórias da menina que eu era antes do tempo virar. Esqueci de balançar na rede, testar maquiagem e dar errado. Esqueci das minhas exigências, das minhas querências, do meu jeito de querer tudo sempre a meu modo, mas ceder vez em quando com charme que é pra dar gosto. Esqueci de querer, de decidir, de lembrar que eu sempre posso escolher. O tempo virou. A vida virou. O mundo ficou. Eu fiquei também.

Uma memória. Eu. Me lembrei de mim. Lembrei das querências, das exigências, voltei pior. Querendo mais, exigindo mais. De mim. Dos outros. Do mundo. O melhor, o melhor e o melhor. Lembrei de amar ler na janela, lembrei de amar shopping vazio em plena manhã de sexta-feira, lembrei de ouvir as músicas que só eu gosto. Pego metrô a hora que eu quiser, trabalhar e trabalhar até que eu seja o que eu sempre quis de tudo: O melhor. Liguei pros amigos, lembrei das risadas, dos abraços, das noites de violão e o calor do fogão. Comunhão. Lembrei de criar o mundo que eu gosto, me cercar do que parece comigo e a explorar aquilo que desconheço. Lembrei de mim. Lembrei da paz da casa cheia, do som do piano e da luz na varanda. Fidelidade de mim. Memória. Mulher. A vida virou. Eu virei eu outra vez. Mais eu mesma do que nunca.