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30 out, 2020

Maresia

Você fez todo o antes perder o sentido. Como se fosse outra vida, como se eu fosse outra pessoa. Eu olho pras palavras antigas e elas se embaralham num trava línguas impossível de decifrar. Parece até que eu mudei de idioma. Talvez porque você é um país estranho a mim. Território estrangeiro que convida qualquer desbravador a se aventurar na deliciosa tarefa de navegar pela alma de alguém. 

Você é uma daquelas pessoas com pele de brisa leve, frescor da tranquilidade. Sorrateiramente, esse ventinho aparentemente inofensivo mandou meus mapas e meus planos pelos ares. E eu me vi cercada de água num mar tranquilo: adeus estratégias, adeus capricórnio. Nada de caminhos traçados até o destino neste trópico. Por aqui, apenas surpresas. 

Antes, farta dos navios. Agora, ilhada no oceano do seu deconhecido. Você muda de humor com facilidade, mas quase sempre volta à paz. Mar transparente que conserva alguns segredos no fundo. Cristalino feito espelho, fez meu reflexo se enxergar nas profundezas. E odeia os dias de chuva e tempestade, que instalam uma ressaca incontrolável. É alma solar e agitada, com um fascínio pela vida que contagia. E só de te olhar, me dá vontade de mergulhar na sua alegria. 

Pouco a pouco, a maresia cria ligações invisíveis entre nós e eu sinto medo porque já não sei o que vou fazer se esse barco naufragar. Mas, já é tarde demais para voltar atrás. Quando vi, o veleiro já havia zarpado, cortando a superfície das ondas, numa velocidade que eu desconhecia. Não existe tédio no alto-mar. E ainda assim, serenidade quase sempre. Basta de tempestades, basta das guerras de Ares. 

Carreguei todas as minhas inquietações num barco à vela solitário, sem jamais saber onde iria desembarcar. Um marinheiro pode se fazer capitão por conta própria. Especialmente, quando a travessia se torna o maior descobrimento desde as Grandes Navegações. Você dividiu meu tempo em antes e depois. Amor imperioso e adaptável um feito água. Faz a vida à beira-mar ter todo dia novo verão. 

29 abr, 2019

POEMA: NO FINAL DO CORREDOR

No final do corredor

apesar de distante, não levo muito tempo para enxergá-la de fato

orgulhosa, forte e um futuro que não faz ideia do que o estima

se eu pudesse, tomaria cuidado

e em silêncio ela fica, a medida que se aproxima

ela carrega nas costas os fardos pesados que envergam a coluna

leva no rosto os traços invisíveis do tempo, ela é a Hiroshima

seus pés são meio tortos pelo caminho tortuoso que importuna

e em silêncio ela fica, a medida que se aproxima

as curvas do seu corpo remetem a escultura que um dia a findaram

que hoje é escondida pelo papel e ela se lastima

não é novidade que existe mais Zumbi que Dandara

e em silêncio ela fica, a medida que se aproxima

a guerra que vive não lhe pertence, é como disseram:

as flores são exímias delicadezas da matéria

e talvez não tenha tanta iluminação como propuseram,

mas o que é isso para tanta Maria Quitéria?

a fortaleza dela está em constante crescimento

assim como a evolução ao redor se prepara para recebê-la,

é um espelho tão lindo…

Ora! Você fala?

22 abr, 2019

CRÔNICA: ÚLTIMAS PALAVRAS

A morte vem para todos nós de qualquer jeito, não tem como trapacear ou enganá-la. É inevitável. Nessa hora quero pedir perdão por ter sido o que fui e feito o que fiz. Não estou assustada com o fato de morrer tão cedo assim, o que mais me assusta mesmo é ter que ser desse jeito. Sem aviso, sem despedidas e sem as minhas últimas palavras – a menos que isso conte, é claro.
E aqui vai uma revelação.
Eu sei que não fui a melhor versão de mim que eu poderia ser e que, com alguns sorrisos e pedidos de desculpas, eu poderia ter evitado que muitas coisas ruins acontecem. Quem sabe se eu não tivesse criticado tanto as pessoas ao meu redor, eu teria alguém por perto na hora em que mais precisei.
Vamos aos fatos: se eu tivesse dado mais valor às pequenas coisas que sempre amei, quem sabe, eu não estaria aqui, eu poderia ter evitado muitas coisas. Talvez se eu tivesse me defendido quando as coisas começaram a ruir as coisas teriam sido melhores, eu poderia ter feito as pazes comigo mesma.
Mas não, eu não fiz nada disso.
E antes de analisarmos tudo na balança, por favor, quero um minuto de atenção, o que foi realmente de tão absurdo que eu fiz para merecer isso e, o que quer que tenha sido, foi tão pior do que todo mundo faz todos os dias: o que fizeram com você, o que fizeram comigo e o que eu fiz?

15 abr, 2019

CRÔNICA: AMOR

Depois de tantos anos o nosso sonho finalmente se realizou. Surgiu pequeno, como um broto de feijão que unia os nossos dois corações e foi crescendo ao passo que era alimentado todos os dias. Você entrou na minha vida sem aviso e ao passo que as horas corriam, eu me sentia sempre mais próxima de ti, sem ao menos saber do que se tratava, fui deixando essa distância entre nós dois diminuir e o broto de feijão se tornar maior.
Com tantas batidas do meu coração era difícil escutar algo de fora, mas para ser bem sincera eu nem me importava de não entender contando que estivesse com você. Eu balançaria a cabeça para qualquer coisa que você me perguntasse na tentativa de arrancar um sorriso seu, aquele que me acompanhou até aqui e que me livra até do maior dos males.
Quando eu sonhava em te encontrar, não sabia que seria assim e nem até onde chegaria. Me surpreendi todas as vezes com o que destino me apresentou e dentro de mim uma enorme gratidão cresceu, era tudo além do que eu poderia desejar e muito mais do que eu deveria merecer.
De fato era um confidente, companheiro, melhor amigo e comediante que estava do meu lado e que ainda continua no mesmo lugar. De todos os lugares possíveis para ficar, ele escolheu esse e eu escolhi ele.
Até hoje pergunto aos céus, o que fiz para ganhar alguém assim? O que quer que tenha sido, por favor me avise. Farei dez vezes mais.

08 abr, 2019

CRÔNICA: VERBO

Inevitavelmente, você está em todas as páginas, todos os livros, todos os filmes. Inegavelmente, teus defeitos fazem falta nos meus fins de tarde, tua voz cantando baixinho no carro não me abandona enquanto eu dirijo pro canto oposto da cidade e som da tua risada, aquela primeira da manhã, ecoa no sol cedo do sábado.

Coleias páginas desse livro velho que é a gente, que é insistir nos mesmos erros.Erro em ir de novo ou erro em ficar de novo? Eu não sei. Só lutei contra o ímpeto que te fazpermanecer, queimei todas as cenas do passado, só pra depois ter certeza de quenão dava para incinerar aquilo que por si só já era incêndio. Eu discutocomigo e peço pra não me angustiar, me convenço que preciso de um sinal teu, deum avanço que me fala não ter vontade de ir embora. Naquela minha autossuficiência, eu sempre soube nãoprecisar de você. E que engraçado é não precisar e querer tanto. É queeu sou assim, sabe?

Eusei que você quer, por te conhecer como a palma da mão, por decorar a cadênciadas tuas palavras, por ter teu olhar gravado no meu. Mas, eu preciso saber que você mequer, com segredo contado de madrugada, como confissão adolescente feita em umestacionamento qualquer. Eu preciso saber que nosso querer-não-quereruma hora se desfaz no colo do outro. Eu preciso saber de simplicidaderotineira, antes tão incômoda, agora tão singela e cheia de sensibilidade.

Enquanto isso, corremos. Corremos pra nãoabrir o peito, pra não abrir a caixa de pandora que os dois carregamos nocorpo. O outro. Eu moro aí e você mora aqui. Te levo pra ver o mundo enquantovocê escuta música no quarto, você me leva pro trabalho enquanto eu assistotelevisão. Fugimos. Porque o encontro é sempre igual. Uma palavra puxa a outracomo irmã e, nesse magnetismo, o separar deixa de fazer sentido. Como a mágicaem que um lenço é puxado da cartola, cada frase chama a próxima e a conversanunca acaba. Porque a gente nunca acaba e é saber disso que faz a ausênciaamarga e nos obriga a aumentar os espaços. Basta uma vez, basta chegar um poucomais perto. Pra que, de novo, tudo seja fogo.

01 abr, 2019

CRÔNICA: HISTÓRIA PRO NÓS DORMIR

Parei de tentar me enganar e dizer que a gente combina. De tentar provar pra mim que você era a ideia perfeita, o futuro desejado e o tempo que eu não perdi, ganhei.

Parei de me lembrar de te amar em todas as manhãs e em me falar que distância e tempo é o mesmo que nada pra um amor forte e findo no mundo, mas eterno no peito. Eterno, de fato. Eterno por alguém que não existe mais.

Eu amei quem você era, em todas as cores e intensidades possíveis. Amei, amei e amei até depois do fim. Amei até que não sobrasse nada, como quem torce o cabelo molhado depois do banho. Até a última gota, com a delicadeza necessária pro cuidado não machucar.

Não é você, sou eu. Um clássico. História pra boi dormir. Coração pra gente partir.

Quem tenta muito sempre acostuma a permanecer tentando mesmo quando não há nada pra ser objeto de tentativa. Você não existe mais. Carinho pra sempre, memória que alegra o peito e todas as coisas bonitas que a gente odeia pensar sobre quando tá junto, mas que é o que fica depois que tudo acaba. Histórias de nós. Histórias pro nós dormir.

25 mar, 2019

CRÔNICA: CURTO-CIRCUITO

Você me reapareceu assim: Susto,soluço, choque, arrepio. Corrente elétrica que atravessa o copo num caminhoconhecido, canto cativo, e sabe exatamente que provocar. É como enfiar o dedona tomada: Perigo, de novo. E, outra vez, eu não ligo. A gente sempre riu nacara do perigo e sempre chorou quando o choque do beijo virou curto circuito. Mas, é sempreassim: um susto. Euforia que me levanta pelas pernas e se debruça em todas asminhas dúvidas com uma cara de quem me pergunta “por que não?”. A minha cabeçagira entre um eterno “eu sempre soube que seria você” e uma desconfiança de“será que é mesmo?”. Eu nunca sei responder.

Quandovocê gritou meu nome na multidão daquela noite, eu tive certeza: Você tinhavarrido minha sanidade. O que eu estava fazendo ali? E o corpo respondeu namesma hora, uma daquelas sensações sem nome. A voz por trás do grito tinha omesmo nome do meu arrepio. Corrente de adrenalina, voz entalada na garganta,pés presos no chão.

Pordentro, eu já tinha virado geleia. Mas, do lado de fora, eu sabia que você meenxergava sólida, cheia de certezas, todas elas vindas de uma vida da qual vocênão era mais parte. Tranquilidade na respiração e risada leve, que surgiram desó Deus sabe onde. Você me estranhou, certamente procurando algum vestígio seuem mim. Desculpa. Nenhum de nós sabia, mas quando você atravessou a porta,começou a me ensinar a lembrar de mim, e só de mim. Viver sem você no fim dascontas não era tão difícil.

Agente é uma daquelas coisas que eu não saberia por onde começar. Mas, já seique se começasse, não saberia como parar. Já sei também que ia ficar sem jeito,totalmente perdida entre observar teu sorriso e encarar o olhar que me seguiu acada instante depois que a nossa conversa acabou. E o nosso jeito? Será que agente já desaprendeu as coisas que sabíamos de cor? Será que eu saberia teencaixar no meu hoje e teria lugar pra mim do lado daí?

Lembrocomo se fosse hoje, o último sorriso que você me deu antes de partir, e comoparecia que nele cabiam todos os significados do que era ser a gente. E aindaassim, eu não sei dizer se as coisas fazem sentido. Eu sempre sei. Dessa veznão. Dessa vez, só tem a gente se encontrando, um tão perdido quanto o outro.Dupla pra vida, não era? Não encontrei esse sorriso da última vez que nosvimos, mas era como se a gente procurasse aquelas coisas conhecidas no outro.

Mas,alguém havia mudado os móveis da casa do lugar. Quase tudo mudou. E o “Nós”?Foi nas caixas da mudança ou ficou bem guardado naquele baú decorado no fundodo armário do escritório? Outro dia chegou aqui em casa uma foto sua, sabia? Demuitos anos, quando não tinha barba e nem estatura. E também teve outra: Euachei ter jogado tudo que era seu fora, mas abri o porta joias e encontreiaqueles anéis que te custaram alguns meses de mesada e muita coragem pra medar.

Tever engatilhou em mim um caos que já havia se instalado aqui inúmeras outras vezes,só que dessa vez se espalhou num lugar bem menos ingênuo. Eu não sei se vocêseria capaz de me amar tanto assim. Não tanto quanto eu vou querer. O tempo mefracionou e metade de mim morre de medo de retroceder, enquanto a outra metadesabe que a isto eu sei de chamar de lar. Tanto mudou e tanto permanece igual, écomo se a pinta no canto da tua boca sentisse falta dos beijos roubados.Preciso confessar: vez em quando eu te visito pra viver um pouco das memórias,porque de saudade eu já morri faz tempo.

Queriate redescobrir do zero, daquelas coisas que não existem, né? Eu sei que não.Mas queria te redescobrir de novo, como promessa adolescente, adrenalina do quenão foi vivido. Sussurar no seu ouvido tudo o que não somos ainda. Eu nem seise a gente ainda se encaixa. Retrocedemos quilômetros e perdemos tanto tempo,ou será que foi perder pra ganhar? Se pá. Eu só sei que, se for você, a vidavai dar um jeito de me fazer te encontrar e que, se não for, eu é que sereiencontrada.

18 mar, 2019

CRÔNICA: TODA DOR É POR ENQUANTO

Por enquantoainda te amo, por enquanto ainda sigo seus passos na sala, ainda procuro teusrastros na minha pele, ainda olho no fundo do armário em busca daquela camisajeans velha que eu queria pra mim. Ela não está aqui. E você também não.

Por enquanto,ainda sorrio lendo cartas, ainda choro olhando fotos e ainda evito passar pelosteus lugares, ainda postergo os planos de adotar um cachorro pra ver se asolidão passa.

Por enquanto,ainda perco ar se o telefone toca, ainda é taquicardia se vejo sua foto na telado celular, ainda é meu corpo escorregando pela porta num choro compulsivo.

Por enquanto,saudade. Por enquanto, ainda é você.

Toda dor é porenquanto. Toda dor é feito viagem no verão: data que começa e dia em quetermina. Essa não foi planejada, não marquei data pra te perder nem marqueidata pra retornar pra casa sem pensar em você. Mas, eu pretendo voltar pra mimo quanto antes. Por enquanto, choro, por enquanto adentro o buraco que vocêdeixou em mim. Você, meu querido, é só o meu por enquanto.

11 mar, 2019

CRÔNICA: ALÍVIO

Olhei pra vista lá fora. A vida continuava se vivendo. Era quase resignação, como quando tive que concordar com seu pedido que eu fosse embora. As árvores da minha rua continuavam iguais. A paisagem não mudou. O quarto continuava igual. A única coisa que mudou era que eu não tinha você. E aí eu concordei em ter só a mim e ao resto das pessoas que eu já tinha. Resto. Como é que a gente pode ter tanto e considerar tão pouco na falta de uma só parte. Você. Foi você quem escolheu não estar. E era melhor. Pela primeira vez, alívio. Sabe aquela respirada bem fundo que realmente acalma? Ela só chega depois do desespero, depois do absurdo. Parei. Larguei a pá, parei de cavar minha própria cova. Paz. Tá tudo em paz.

A vista dajanela é igual todos os dias. Há dias em que eu gosto do jeito que a luzamarela bate no asfalto e transpassa por entre as folhas. E que eu também gostode como o tempo fecha e fica meio aconchegante. Mas, há dias em que estoutriste, então o sol parece forte demais e não me faz melhorar. E há dias que achuva parece ser proposital, pra me fazer piorar. A paisagem está sempre lá,sou eu que transito, mudo. O mundo não é pior porque eu estou mais triste, mascertamente parece melhor quando tudo está bem. E hoje tudo está bem, nemdemorou tanto pra ser assim.

Tem sol lá fora.Tem carro correndo. Tem gente vivendo. Respirando. Eu também. A cidade, umcaos, mas aqui dentro, silêncio. Tá tudo bem. E tá tudo bem em estar tudo bemtambém. O fim da gente não é o fim do mundo. Não é o meu fim. O mundo talvezseja esse, assim, meio sem fim. Quem sabe eu seja assim também.

04 mar, 2019

CRÔNICA: PERDÃO

Depois de todo esse tempo estou aqui, na sua frente, com o poder de apontar dedos como durante todos esses anos fez comigo, com o direito de criticar e te insultar sem mesmo me preocupar em lembrar seu nome ou o que fez de tão significante, com a razão de dizer grandes coisas sem ligar para as consequências.

Depois de todo esse tempo, cá estou eu, reconstruída. Uma união de cacos quebrados colados. Fragmentada. Armada.

Depois de todo esse tempo eu voltei, não como a vítima, não mais e, sim, como a que bate o martelo. Em vez disso, eu me aproximo e te toco. Te perdoo. Nunca pediu, mas vai desejar isso pelo resto dos dias. Eu te perdoo. Perdoo quando colocou o pé no caminho e me fez espatifar no chão porque seus amigos acharam que ia ser engraçado. Perdoo quando escreveu aquelas frases na parede do banheiro me esperando chegar pra tornar o que estava ruim bem pior. Perdoo quando espalhou histórias pelo colégio inteiro e me fez passar dias sem ir na cantina porque temia que alguém me encontrasse no caminho.

Perdoo porque o seu pior castigo é passar os dias desejando ter crescido antes. Agora já é tarde e o sol já se põe, todos vão para as suas casas se proteger da escuridão enquanto você espera por ela.