08 abr, 2019

CRÔNICA: VERBO

Inevitavelmente, você está em todas as páginas, todos os livros, todos os filmes. Inegavelmente, teus defeitos fazem falta nos meus fins de tarde, tua voz cantando baixinho no carro não me abandona enquanto eu dirijo pro canto oposto da cidade e som da tua risada, aquela primeira da manhã, ecoa no sol cedo do sábado.

Coleias páginas desse livro velho que é a gente, que é insistir nos mesmos erros.Erro em ir de novo ou erro em ficar de novo? Eu não sei. Só lutei contra o ímpeto que te fazpermanecer, queimei todas as cenas do passado, só pra depois ter certeza de quenão dava para incinerar aquilo que por si só já era incêndio. Eu discutocomigo e peço pra não me angustiar, me convenço que preciso de um sinal teu, deum avanço que me fala não ter vontade de ir embora. Naquela minha autossuficiência, eu sempre soube nãoprecisar de você. E que engraçado é não precisar e querer tanto. É queeu sou assim, sabe?

Eusei que você quer, por te conhecer como a palma da mão, por decorar a cadênciadas tuas palavras, por ter teu olhar gravado no meu. Mas, eu preciso saber que você mequer, com segredo contado de madrugada, como confissão adolescente feita em umestacionamento qualquer. Eu preciso saber que nosso querer-não-quereruma hora se desfaz no colo do outro. Eu preciso saber de simplicidaderotineira, antes tão incômoda, agora tão singela e cheia de sensibilidade.

Enquanto isso, corremos. Corremos pra nãoabrir o peito, pra não abrir a caixa de pandora que os dois carregamos nocorpo. O outro. Eu moro aí e você mora aqui. Te levo pra ver o mundo enquantovocê escuta música no quarto, você me leva pro trabalho enquanto eu assistotelevisão. Fugimos. Porque o encontro é sempre igual. Uma palavra puxa a outracomo irmã e, nesse magnetismo, o separar deixa de fazer sentido. Como a mágicaem que um lenço é puxado da cartola, cada frase chama a próxima e a conversanunca acaba. Porque a gente nunca acaba e é saber disso que faz a ausênciaamarga e nos obriga a aumentar os espaços. Basta uma vez, basta chegar um poucomais perto. Pra que, de novo, tudo seja fogo.

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